Loving Vincent
Ainda mais do que dizem
Van Gogh não estava à frente do seu tempo.
Tendemos a engrandecer um gênio com a afirmação contrária, exprimindo esse elogio comum.
Um gênio produz seus clássicos, dignos de serem considerados clássicos, por passear pelo tempo em que vive, não necessariamente por estar à frente dele. Aqueles que de fato estiveram, foi por centralizarem seus esforços em tal, em previsões — ações, consequências, desfechos. Possibilidades. Variações.
Em grande parte, o gênio produz seus clássicos ao capturar o exato momento que vive, explorando suas nuances. Persiste ao tempo pois o ser humano vive em espécies de ciclos, e algo do passado sempre reverbera no presente, semelhante em algum núcleo; mas nossa espécie ainda é capaz de usar no aqui e agora o que foi deixado, para enxergar, diferenciar e lidar.
Vincent produzia pós-impressionismo durante a ascensão do pós-impressionismo. Digo que ele não estava à frente de seu tempo, portanto. Suas diferenciações possuíam outras raízes, muitas delas: como contava sua história através da pincelada com assinatura singular, explicitando os estudos feitos e o enriquecimento que eles trouxeram para sua mão; as revoluções que trazia em cor e iluminação; a consistência surpreendente mantida durante seu curto período de produção; a retratação de temas ordinários elevados por sua técnica e vigor simbólico a obras-primas existenciais… Ele explorou além, muito além, do que outros pintores de sua época descobriram.
Assisti recentemente o filme No Portal da Eternidade, a cinebiografia de Vincent.
O longa conta com Willem Dafoe no papel principal. A escolha se mostra certeira de imediato no modo como ele incorpora um peso em seus movimentos, como se vagar pela vida fosse estar em um constante tipo de dor abafada. Ainda, em contrapartida, seus olhos estão sempre atentos aos arredores, observando-os sob a ótica da curiosidade e da contemplação, capturando e reproduzindo a seu modo coisas pequenas, experimentando com elas e a beleza que podem imprimir na tela — a pintura feita de seus sapatos, no início do filme, por exemplo. Quando em meio aos tons escuros de onde vivia e o cinza ruidoso pela ventania ao lado de fora, ele traz cor ao seu próprio mundo.
Acredito que tão pouca informação sumariza bem essa figura, ou ao menos o que me fascina tanto em quem ele foi: disposto a enxergar a beleza da vida e contribuir para o pedaço de existência lhe dado, mesmo caminhando pesado, de humores instáveis, solitário por majoritária parte de sua passagem.


Assistir ao filme me trouxe lembranças de uma leitura feita há bastante tempo: Cartas a Théo.
O incentivo viera através da música Vincent, escrita por Don McLean — especificamente a rendição nomeada Starry Starry Night, de Lianne La Havas, feita para o filme Com Amor, Van Gogh (2017).
Diferentemente do que ocorrera durante minha leitura de Cartas a Milena, a indagação pessoal a respeito de até que ponto era justificável estar com aqueles relatos pessoais em mãos não cruzou minha mente. Atribuo isso ao fato de não se tratarem de cartas tão íntimas e centradas em um triste romance condenado por natureza, e sim uma troca de vivências entre dois irmãos cujos o laço foi digno de admiração. Cartas sobre rotinas, estudos, experimentações… tribulações, intempéries, mágoas, dores… Com paixões turbulentas e não correspondidas, claro, mas peças de um quebra-cabeças cujo a imagem era muito maior.
Cartas daquele homem que um dia foi uma criança pouco sociável, introvertida, porém, maravilhada e curiosa por tudo ao seu redor, especialmente a natureza. Uma criança que vagava sozinha por florestas, desacompanhado por qualquer outra pessoa senão seu irmão, já seu confidente na época. Uma criança criada por seu pai pastor e sua mãe pintora amadora, que transmitiu aos seus filhos não somente o apreço pelo pincel como também pelo canto e a leitura — ensinamentos carregados por Vincent durante toda sua vida.
Em Helvoirt, quando, mesmo após seu coração ser partido por uma paixão não correspondida, ele não deixa de desenhar.
Na sucursal de Londres, aos vinte anos, onde tem livres sábados e domingos, que separa para desenhar sentado à beira do Tâmisa, incontáveis vezes.
Ou quando, atraído pela religião e inspirado por seu pai, busca ser líder espiritual, um pastor. Chega a servir alguém nessa posição, o Mr. Jones; mas logo é dispensado por sua ausência de talento para oratória. Anos depois, então, após desistir da Universidade de Amsterdam, busca ser missionário, preparado em Bruxelas, posteriormente enviado com uma missão de seis meses a Borinage — onde tenta servir de apóstolo para os mineiros de carvão. Sem sucesso. É mau pregador. Ainda, nos poucos momentos livres, nunca deixa de desenhar.
Mesmo quando ele voluntariamente se interna dadas condições psiquiátricas. Nunca deixa de desenhar. Durante os períodos de lucidez, pinta. E ali, no asilo Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, concebe uma de suas obras mais icônicas:
Eis então o cerne do rótulo “gênio louco”, o arquétipo ao qual Vincent é frequentemente reduzido por muitos. Suas crises, internações e, até mesmo, ambos automutilação e o fato de ter tirado a própria vida.
Transtorno afetivo bipolar. Dia trinta de março é o Dia Internacional da Conscientização do TAB. A data fora escolhida justamente por ser data de aniversário de Vincent, diagnosticado postumamente como provável portador do transtorno psiquiátrico.
Alguns, tendo ou não esta informação em mãos, atribuem sua genialidade a uma condição mental crônica, independentemente da terminologia. O debate é profundamente extenso, então, por conseguinte, escolherei não trazê-lo em sua totalidade por agora. Acredito, no entanto, que ter de carregar uma neurodivergência em um mundo fundamentado para neurotípicos traz perspectivas singulares naturalmente impressas na obra de um artista; mas resumir a genialidade do artista meramente a ela é simplório.
Neste caso, o “gênio louco que vivia na miséria e vendeu somente um quadro em vida”? Rótulo indigno.
Em vez…
Vincent, o irmão fiel.
O amante intenso, que se entregava por inteiro a suas paixões, ao ponto de brigar por elas.
O artista tenaz, que apesar de seus humores instáveis e crises de saúde mental, nunca largou mão de seus instrumentos de criação.
Vincent, o leitor voraz e eclético. Apreciador de Charles Dickens, Honoré de Balzac, Shakespeare, Victor Hugo, Voltaire… A lista segue.
O homem em roupas amarrotadas que abordava estranhos e os pintava, fossem camponeses, ou um pescador e sua esposa, ou um colega paciente no asilo de Saint-Rémy-de-Provence, e deixava-os maravilhados com os retratos.




Uma das almas mais belas marcadas na História. Não um gênio por sua loucura, mas apesar dela. Por nunca deixa de estudar. Por sempre se fascinar pela natureza, apesar de adversidades. Por viver com intensidade suas sensações e curiosidade. Por nunca deixar de tentar, mesmo que o mundo se recusasse a dá-lo caminhos fáceis para suas vontades e desejos.
Vincent van Gogh, cujo nenhuma quantidade de dinheiro que existiu, existe ou existirá, compraria a beleza contemplada pelos olhos dele. E nenhum status de gênio faria jus ao que de fato ele enxergava no mundo e em nós.




Vincent daria like neste texto, mas tiraria com medo de parecer que está se bajulando
Então guardaria ele pra reler quando sentisse falta.
Considero o texto extremamente rico. Muitas vezes ouço pessoas observarem as obras de Vincent e reduzirem sua trajetória a comentários como ‘essa é a pintura do homem que cortou a própria orelha’, ignorando o significado profundo de suas criações e a relevância que ele teve. Mas você conseguiu transmitir tudo isso com maestria no texto. Ficou belíssimo!